O conceito de Ambiente Pessoal de Aprendizagem, comummente designado pela sigla «PLE» (Personal Learning Environments), surgiu no panorama educativo, em grande parte, devido às mudanças sociais e culturais provocadas pelo grande salto tecnológico verificado com o aparecimento da Web 2.0. Representa uma nova abordagem da aprendizagem, em contraste com os sistemas institucionais mais tradicionais, como os Ambientes Virtuais de Aprendizagem (VLEs) ou Sistemas de Gestão da Aprendizagem (LMSs). A ideia dos PLEs surgiu pela primeira vez num documento de (Bernard Olivier & Oleg Liber, 2001) em 2001, onde procuraram integrar contextos institucionais com um modelo peer-to-peer centrado no aprendente.
Apesar da sua relevância crescente, a definição de PLE é ainda diversa. Pode ser visto como um ecossistema virtual, um conjunto de ferramentas baseadas na web que agregam conteúdo, ou mais amplamente, um conjunto de ferramentas interligadas pela abertura, interoperabilidade e controlo do aprendente. (Scott Wilson, 2008) descreve-o como um ambiente onde pessoas, comunidades e recursos interagem flexivelmente. (Paulo Simões, 2010) destaca que proporciona um espaço pessoal sob o controlo do aprendente para desenvolver e partilhar opiniões. (Ron Lubensky, 2006) refere a agregação e partilha de experiências através da configuração e manipulação de artefactos digitais. (Graham Attwell, 2007) associa-o a interfaces web, software social e promoção da autonomia. Em suma, um PLE é um espaço pessoal gerido por regras próprias, onde informação é registada, partilhada, aperfeiçoada e perpetuada como bem comum. É um espaço mediado por tecnologia que relaciona conhecimento com outros pares ligados na Web 2.0.
A relevância do PLE reside na promoção da autonomia e auto-organização dos aprendentes, incentivando instrumentos de auto-orientação e estratégias descentralizadas das instituições. Favorece a metacognição, levando os alunos a refletir sobre ferramentas e recursos. Segundo (Stephen Downes, 2006), a pedagogia do PLE permite explorar e criar por interesse próprio, interagindo com amigos e a comunidade, tornando a aprendizagem social e cognitiva. Baseia-se na capacidade de agregar recursos, permitindo ao aluno aprender com outros, controlar recursos e integrar aprendizagens. A argumentação para o uso de PLEs não é apenas técnica, mas também filosófica, ética e pedagógica, com impactos positivos na pesquisa, análise, comunicação, colaboração e síntese. Contudo, a prática generalizada é distante, pois a ideologia do PLE ainda está em formação (George Siemens, 2007).
O desenvolvimento e utilização do PLE para a aprendizagem em rede envolve a agregação de diferentes recursos tecnológicos e serviços. Não é uma única plataforma, mas um conjunto de ferramentas escolhidas pelo aprendente. As três partes fundamentais de um PLE são: ferramentas (comunicação, criação, gestão), recursos (fontes de informação), e a Rede Pessoal de Aprendizagem (PLN), o conjunto de pessoas com quem o aprendente interage.
A aprendizagem em rede num PLE ocorre pela interação com outros na rede. A conectividade é essencial; ambientes fechados não são PLEs. A troca de informação pode ser mediada por objetos digitais ou direta em redes sociais. Num PLE, o aprendente deve participar ativamente, sendo produtor de informação, não apenas consumidor. Para construir e manter um PLE, é preciso generosidade (“dar tanto quanto se toma”) para criar relações de confiança mútua (Jared Stein, 2008).
Apesar das potencialidades, a gestão da informação pode ser difícil, ficando dispersa. Manter um PLE exige esforço constante para otimizar o espaço e aumentar a notoriedade, o que pode ser desgastante. É crucial que o conteúdo seja útil no âmbito pessoal e coletivo. O desafio é usar a heterogeneidade da Web de forma útil, o que requer um propósito para o PLE.
As práticas de PLE podem não ser adequadas para crianças e adolescentes em ensino formal, pois exigem autocontrolo, autonomia e reflexão, capacidades que se acentuam com a idade. Sugere-se que surjam a partir do final do ensino secundário. Educadores expressam preocupações com a autonomia e necessidade de supervisão dos alunos mais novos.
A integração do PLE no ensino formal enfrenta desafios. Há pouca recetividade no ensino presencial em comparação com o misto e a distância. Em instituições públicas, faltam formação em TIC e meios tecnológicos, e o sistema educativo não se alinha com o conceito de PLE. A probabilidade de aplicação em sala de aula é baixa, apesar de muitos educadores admitirem a utilidade. As práticas baseadas em PLE geram polémica pela autonomia do aprendiz. O PLE é visto como um instrumento de apoio independente do ensino tradicional, não um substituto (Graham Attwell, 2007; Terry Anderson, 2005). A distinção entre espaços pessoais e formais é uma preocupação.
Em suma, os PLEs representam uma poderosa abordagem centrada no aprendiz para a aprendizagem em rede, aproveitando a vasta quantidade de recursos e a capacidade de conexão da Web 2.0 para promover autonomia e colaboração. Contudo, a sua adoção generalizada no ensino formal é complexa e depende de mudanças estruturais, desenvolvimento de competências e superação de barreiras institucionais. Em suma, os Ambientes Pessoais de Aprendizagem representam uma abordagem da aprendizagem centrada no indivíduo, que se apropria de ferramentas e recursos tecnológicos e, crucialmente, se conecta com uma rede pessoal de aprendizagem para construir, partilhar e gerir o conhecimento de forma autónoma e contínua. Embora possuam um grande potencial para inovar as práticas educativas e apoiar a aprendizagem ao longo da vida e informal, a sua integração plena nos contextos de ensino formal enfrenta desafios significativos, relacionados com a estrutura institucional, as competências dos intervenientes e a própria maturidade dos aprendizes. A necessidade de encontrar formas de articulação entre os sistemas institucionais e os PLEs continua a ser um ponto de discussão relevante nesta área.
Eduardo Santos
Bibliografia
Bernard Olivier & Oleg Liber. (2001, dezembro). Lifelong learning: The need for portable personal learning environments and supporting interoperability standards. Bolton Institute. http://ssgrr2002w.atspace.com/papers/14.pdf
George Siemens. (2007, abril 15). PLEs – I acronym, therefore I exist. elearnspace. http://www.elearnspace.org/blog/2007/04/15/plesiacronymthereforeiexist/
Graham Attwell. (2007, janeiro). PLE – the future of eLearning? eLearning papers. http://www.elearningeuropa.info/files/media/media11561.pdf
Graham Attwell. (2023). Personal Learning Environments: Looking back and looking forward. Revista de Educación a Distancia (RED), 23(71). https://doi.org/10.6018/red.526911
Jared Stein. (2008, fevereiro 18). PLE is people! [Blog]. Jaredstein blog. http://jaredstein.org/2008/02/18/pleispeople/
Jordi Adell (Diretor). (2011, fevereiro 3). PLE segun Jordi Adell #PLE by @jordi_a [Youtube]. https://conocity.eu/jordi-mapleando/
José Carlos Mota. (2022). Personal Learning Environments: Contributos para uma discussão do conceito. EDUCAÇÃO, FORMAÇÃO & TECNOLOGIAS, 2(2), 5–21. https://eft.educom.pt/index.php/eft/article/view/54
Julio Cabero-Almenara & Antonio Palacios-Rodríguez. (2021). La evaluación de la educación virtual: Las e-actividades. RIED. Revista Iberoamericana de Educación a Distancia, 24(2), 169. https://doi.org/10.5944/ried.24.2.28994
Maribel Pinto. (2015). Pedagogical potential of personal learning environments in higher education in sapo campus platform. EDULEARN15 Proceedings, 6683–6692.
Moreira, J. A., & Horta, M. J. (2020). Educação e ambientes híbridos de aprendizagem. Um processo de inovação sustentada. Revista UFG, 20. https://doi.org/10.5216/revufg.v20.66027
Paulo Simões. (2010, fevereiro 27). PLE – ambientes pessoais de aprendizagem. PGSimoes.net. http://www.pgsimoes.net/blog/?p=5
Pedro de Jesus Rodrigues & Guilhermina Lobato Miranda. (2013). Ambientes pessoais de aprendizagem: Conceções e práticas. RELATEC. Revista Latinoamericana de Tecnología Educativa, 12(1), 23–34. https://repositorio.ulisboa.pt/bitstream/10451/9584/1/997-4403-1-PB.pdf
Ron Lubensky. (2006, dezembro 18). The present and future of personal learning environments. Deliberations. http://www.deliberations.com.au/2006/12/presentandfutureofpersonallearning.html
Scott Wilson. (2008). Patterns of personal learning environments. Interactive learning environments. http://www.informaworld.com/smpp/content~db=all?content=10.1080/10494820701772660
Stephen Downes. (2005). E-learning 2.0. eLearn, 2005(10), 1. https://doi.org/10.1145/1104966.1104968
Stephen Downes. (2006, setembro). Learning networks and connective knowledge. Instructional Technology forum.
Steve Wheeler. (2009). Learning Space Mashups: Combining Web 2.0 Tools to Create Collaborative and Reflective Learning Spaces. Future Internet, 1(1), 3–13. https://doi.org/10.3390/fi1010003
Terry Anderson. (2005, novembro 28). Educational social overlay networks. Virtual canuck. http://terrya.edublogs.org/2005/11/28/helloworld/
Xiaoshu Xu, Yilin Sun, Jie Weng, & Yunfeng Zhang. (2024). Theoretical Framework of Personal Learning Environments: SPET Model. Em Simon K. S. Cheung, Fu Lee Wang, Naraphorn Paoprasert, Peerayuth Charnsethikul, Kam Cheong Li, & Kongkiti Phusavat (Eds.), Technology in Education. Innovative Practices for the New Normal (Vol. 1974, pp. 139–156). Springer Nature Singapore. https://doi.org/10.1007/978-981-99-8255-4_13
Yunfeng Zhang, Xiaoshu Xu, Menglin Zhang, Na Cai, & Vivian Ngan-Lin Lei. (2023). Personal Learning Environments and Personalized Learning in the Education Field: Challenges and Future Trends. Em C. Hong & W. W. K. Ma (Eds.), Applied Degree Education and the Shape of Things to Come (pp. 231–247). Springer Nature Singapore. https://doi.org/10.1007/978-981-19-9315-2_13
