Quando refiro que comecei a dar aulas aos 20 anos numa escola secundária, raramente menciono que ensinava programação e lógica de programação. E que, antes disso já tinha sido explicador de Sistemas Digitais e tido o meu 19 a Informática no IST. Era uma área altamente técnica, apenas ao alcance de um número muito restrito de pessoas. Hoje, décadas depois, reconheço que essa experiência precoce moldou profundamente a minha visão sobre o papel das tecnologias na educação.
Das BBS aos Ambientes Virtuais: Uma Evolução Pessoal
A minha relação com as tecnologias sempre foi, como se costuma dizer, “tu cá, tu lá”. Comecei a usar as redes sociais para aprender e ensinar muito antes de existir uma Internet pública como a conhecemos hoje. Nos anos 80, os computadores ligavam-se ao “mundo” através de modems e da linha telefónica para aceder às BBS (Bulletin Board Systems) da época.
Estas plataformas, que funcionavam apenas em modo texto, já permitiam conhecer e trocar ideias com pessoas de todo o mundo e descarregar textos, imagens, aplicações, etc.
Foi nessa altura que nasceram expressões como “principio de conversa” ASL? (Age, Sex, Location) e um ror de abreviaturas que ainda hoje utilizamos, como LOL (Laughing Out Loud), BTW (By The Way), entre muitas outras. Mais importante ainda, ferramentas como Usenet, FTP e Telnet demonstraram um enorme potencial educacional, desde o acompanhamento de eventos mundiais até à organização de experiências científicas internacionais, unindo universidades de todo o mundo.
A rede FidoNet, mesmo pagando chamadas telefónicas caríssimas e sem Internet, já incluía a K12Net, uma rede dedicada especificamente à educação (Christensen, 1994). Se os fóruns temáticos das BBS se mostraram surpreendentemente eficazes para fins pedagógicos em ambientes com apenas um telefone e um modem lento, imagina-se agora o potencial com a Internet e a democratização do acesso à informação.
Múltiplas Personas, Múltiplos Ambientes
Uma particularidade interessante da minha experiência digital é que assumo várias personas no ciberespaço. O Eduardo UAb é diferente do Eduardo IEFP, que por sua vez difere do Eduardo ANPR, do Eduardo CCPB e do Eduardo SS. Esta estratégia permite-me saber rapidamente em que ambiente me encontro, especialmente quando navego entre diferentes Ambientes de Aprendizagem Pessoais (PLE).
Esta multiplicidade de identidades digitais não é apenas uma estratégia pessoal, mas reflete algo mais profundo sobre como nos adaptamos aos diferentes contextos educacionais virtuais, fenómeno que Goffman (1956) já descrevia como “apresentação do eu na vida quotidiana” e que hoje se manifesta também nos ambientes digitais.
E se eu o uso para em situar rapidamente em que ambiente me encontro, a facilidade de utilização atual das redes, faz com que exista quem o utilize com outros fins: a criação de personalidades falsas para fins elícitos.
Uma Visão Equilibrada sobre Ambientes Virtuais
Tenho vindo a perder o interesse na utilização de ambientes virtuais como as redes sociais tradicionais. E muito menos em ambientes totalmente imersivos como o Second Life. Tal como nunca fui particularmente entusiasta da Realidade Virtual, sendo um “adepto fervoroso” da Realidade Aumentada: que apenas “junta” elementos ao nosso ambiente.
Isto não significa que seja contra a utilização destas tecnologias. Existem inúmeras e excelentes utilizações para a Realidade Virtual, mas sempre em contextos muito específicos e com utilização pontual. No mesmo sentido, a gamificação na educação, por exemplo, torna-a muito mais interessante (Kapp, 2012), mas também deve ser usada com conta, peso e medida para não passar de ferramenta auxiliar a um fator de distração.
São soluções diferenciadas, e é muito positivo que estejam disponíveis para serem utilizadas consoante as necessidades específicas de cada contexto educacional.
O Caso da Escola Virtual Japonesa
Um exemplo que me faz refletir é o da “metaverse high school” que já existe no Japão. Seria normal que um técnico de informática e de formação como eu pensasse que seria “a última coca-cola do deserto”, mas não é o caso. É apenas mais uma alternativa, bem-vinda à comunidade de aprendizagem, mas não será a solução para aquilo que verdadeiramente me preocupa: uma autêntica democratização do acesso à aprendizagem.
Reflexões Finais
Os Ambientes Virtuais de Aprendizagem representam uma evolução natural daquelas primeiras experiências com as BBS dos anos 80. No entanto, a tecnologia por si só não resolve os desafios fundamentais da educação (Cuban, 2001). O que importa é como utilizamos estas ferramentas para criar experiências de aprendizagem significativas e acessíveis.
A verdadeira revolução não está na sofisticação tecnológica dos ambientes virtuais, mas na sua capacidade de democratizar o acesso ao conhecimento e de criar comunidades de aprendizagem que transcendem as barreiras geográficas e sociais.
Como educador que viveu a transição das BBS aos modernos AVA, acredito que o futuro da educação passará por encontrar o equilíbrio certo entre o potencial da tecnologia e as necessidades humanas fundamentais de conexão, compreensão e crescimento pessoal.
Referências
Christensen, W. (1994). The birth of the BBS. Retrieved from https://www.chinet.com/html/cbbs.html
Cuban, L. (2001). Oversold and underused: Computers in the classroom. Harvard University Press. https://www.hup.harvard.edu/catalog.php?isbn=9780674011090
Goffman, E. (1956). The presentation of self in everyday life. University of Edinburgh Social Sciences Research Centre. https://monoskop.org/images/1/19/Goffman_Erving_The_Presentation_of_Self_in_Everyday_Life.pdf
Kapp, K. M. (2012). The gamification of learning and instruction: Game-based methods and strategies for training and education. Pfeiffer. https://www.wiley.com/en-us/The+Gamification+of+Learning+and+Instruction%3A+Game+based+Methods+and+Strategies+for+Training+and+Education-p-9781118096345
















