A Autenticidade na era pós-digital

É “engraçado” ver Salvador Dali (Dalí Lives – Art Meets Artificial Intelligence, 2019) a comunicar connosco mesmo depois de morto.

Tem muito mais impacto ouvir uma mensagem na primeira pessoa que ver alguém a falar sobre um terceiro.

A tecnologia envolvida na IA faz com que a qualidade da imagem nos leve a esquecer de que é apenas uma ilusão criada por pessoas, e que, ao contrário do original, não tem qualquer capacidade de sonhar (ou alucinar, no caso) para criar pinturas ou outras obras de arte.

É apenas um boneco de alta qualidade. E que ainda pode melhorar quando se lhe juntar a tecnologia dos hologramas e uma maior capacidade de interação (perguntas / respostas), como o bibliotecário digital interativo do filme “A máquina do tempo” (Wells, 2002), de há 22 anos.

A parte da IA que contempla os chamados “deepfake“, não é mais que uma evolução técnica de representações gráficas.

Tal como primeiros pintores rupestres Homo Sapiens ficariam, hoje em dia, maravilhados com a qualidade e realismo de uma – para nós banal – fotografia, os vídeos “deepfake“, com imagem e som altamente realistas, também têm o condão de nos maravilhar nos dias que correm.

E tal como seria legitima a preocupação do Homo Sapiens de se poder confundir uma foto de uma vaca com a realidade (ao contrário do que acontece com a sua representação), atualmente existem também os legítimos receios de confusão com a realidade e da (má) utilização que lhe pode ser dada.

Num mundo onde as pessoas são cada vez mais “bombardeadas” por estas cópias, muitas das quais já nem são simulações da realidade, mas que se parecem cada vez mais reais que a própria realidade (Baudrillard, 1991), o aparecimento e disseminação das redes sociais vem colocar, na ordem do dia, uma série de questões cruciais sobre a natureza da autenticidade na era digital.

É importante refletir sobre estes desafios, sobretudo como pode a tecnologia moldar a nossa identidade, relações e até a perceção da própria realidade.

Um dos principais desafios reside na tensão entre a autenticidade e a atuação (representação) online.

A proliferação de plataformas de redes sociais como o Facebook incita-nos a apresentar uma versão idealizada de nós próprios e a buscar a aprovação e a validação virtual. Esta encenação constante pode levar à perda da nossa própria identidade, substituindo-a por uma persona digital construída para agradar aos outros.

A pressão para se encaixar nos padrões virtuais é exacerbada pela presença omnipresente dos chamados influenciadores digitais, que, na sua maior parte, promovem estilos de vida irrealistas e inatingíveis.

A necessidade de seguir tendências e filtros de “aceitação online”, como, por exemplo, ter uma biblioteca falsa atrás das costas quando se grava um vídeo, pode levar à padronização e homogeneização da expressão individual.

Esta pressão social pode mesmo levar a questões sobre a autenticidade da informação. Os chamados boatos, ou notícias falsas, que sempre existiram e que agora se chamam “fake news”, são muito mais fáceis de disseminar e de serem usados para manipular a opinião pública. E as mais recentes tecnologias na área da multimédia, os “deepfakes” (profundamente falsos), dão-lhes uma maior parecença com a realidade, exigindo uma maior vigilância e literacia digital por parte dos utilizadores.

A proliferação de conteúdos manipulados torna crucial a capacidade de discernir entre o real e o virtual, questionando “o que é real?” e “o que estamos dispostos a considerar real?”. (Turkle, 1997)

A questão da autenticidade estende-se também à nossa própria perceção do “eu” no mundo pós-digital. Devemos questionar-nos constantemente sobre quem somos por detrás das máscaras digitais que construímos e se a nossa presença online reflete a nossa verdadeira essência. A crescente interação com avatares e personagens virtuais em ambientes como os MUDs, (Turkle, 1997), levanta questões sobre a multiplicidade e fluidez da identidade na era digital.

Para navegar neste cenário complexo, é crucial cultivar uma maior consciência e conexão com a nossa própria autenticidade. Devemos procurar expressar-nos de forma genuína, resistindo à pressão de nos moldarmos às expectativas online.

A autenticidade reside em ser fiel aos nossos valores, crenças e princípios, independentemente das pressões externas.

É importante destacar que a tecnologia em si não é a raiz do problema, mas sim a forma como a utilizamos. A era digital oferece também oportunidades para uma maior conexão humana e expressão individual. Plataformas online podem servir como espaços para a criação e partilha de conteúdos autênticos, promovendo a diversidade e a inclusão.

A autenticidade no mundo pós-digital exige uma abordagem consciente e reflexiva da nossa presença online. Devemos questionar as motivações por detrás das nossas ações online, procurando garantir que as nossas interações virtuais reflitam a nossa verdadeira essência e contribuam para um ambiente digital mais genuíno e significativo.

Devemos abraçar a nossa individualidade, encontrar a nossa voz em meio ao ruído online e construir conexões autênticas que transcendam as fronteiras do mundo digital.

E quanto à autenticidade do que não depende de nós? Como garantir que a informação que recebemos é fidedigna? Temos de observar a transparência dos processos de recolha, partilha e validação.

Embora a própria comunidade ou rede possa validar determinados conteúdos (por exemplo, através de revisões por pares ou fontes múltiplas), manter a confiança e a qualidade da informação implica práticas de verificação sistemática e a existência de entidades confiáveis.

Assim sendo, a transparência dos processos de partilha, associada a mecanismos de verificação (fact-checking, referências cruzadas, etc.) e ao escrutínio constante de quem publica e de quem lê, torna-se essencial para garantir a fiabilidade e a idoneidade de utilização desses dados.

A questão de como e em quem confiar revela-se determinante para criar um espaço digital onde a informação não só exista, mas também mereça crédito e respeite princípios éticos.

Plataformas de Fact Checking

PolígrafoÓrgão independente de fact-checking português que analisa declarações de políticos, notícias virais e conteúdos das redes sociais.
Observador Fact CheckSecção do jornal Observador que verifica a veracidade de afirmações públicas e notícias que circulam na internet
FactCheck.orgProjecto da Universidade da Pensilvânia (EUA) especializado em analisar factos políticos, desinformação online e boatos virais.
Snopes  Uma das mais antigas e reconhecidas plataformas de verificação de rumores, lendas urbanas e notícias falsas, cobrindo todo o tipo de temas.
Full FactOrganização independente de fact-checking que avalia factos relacionados com política, saúde, economia, entre outros assuntos na sociedade britânica.
Reuters Fact CheckSecção de verificação de factos da agência de notícias Reuters, onde são analisados conteúdos virais e declarações públicas de diferentes áreas e países.
Maldita.esProjeto sem fins lucrativos em Espanha que faz fact-checking de conteúdos virais, notícias e afirmações políticas, com foco na península Ibérica e em assuntos internacionais.
AFP Fact Check  Iniciativa da agência de notícias France-Presse (AFP) para combater a desinformação global, com verificações em múltiplos idiomas.

Dicas práticas para verificar autenticidade de conteúdos

  1. Pesquisar as Imagens
    • Utilize pesquisa inversa de imagens (por exemplo, Google Imagens ou TinEye) para verificar a origem de fotografias ou capturas de ecrã suspeitas.
  2. Verificar Fontes
    • Confirme se o artigo ou vídeo cita fontes reconhecidas (jornais reputados, estudos científicos, relatórios oficiais).
    • Caso sejam mencionados estudos ou entidades, visite os respetivos sites oficiais para confirmar a informação.
  3. Consultar Várias Ferramentas
    • Uma notícia pode ser verificada por mais do que uma plataforma de fact-checking. Cruzar resultados ajuda a aferir a veracidade do conteúdo.
  4. Observar a URL e o Formato
    • Sites desconhecidos, URLs estranhas ou sem indicações de contactos e políticas de privacidade devem ser analisados com cautela.
  5. Atenção aos Títulos Sensacionalistas
    • Títulos em “maiúsculas”, com muitas exclamações ou que prometem revelações bombásticas, são frequentemente clickbait e podem conter desinformação.

Referências

Baudrillard, J. (1991). Simulacros e Simulações. Relógio d’Água.

Dalí Lives – Art Meets Artificial Intelligence. (2019, março 11). [Gravação de vídeo]. https://www.youtube.com/watch?v=mPtcU9VmIIE&t=1s&ab_channel=TheDal%C3%ADMuseum

Turkle, S. (1997). A Vida no Ecrã: A Identidade na Era da Internet. Relógio D’Água.

Wells, S. (Diretor). (2002). The Time Machine [Sci-Fi]. https://www.imdb.com/title/tt0268695/

OpenAI. (2024). A modern composition symbolizing the interplay between the authentic self and digital masks in the post-digital era [Imagem gerada por inteligência artificial]. ChatGPT. https://chat.openai.com/

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