Da Intuição à Fundamentação: Reflexão sobre o Meu Percurso na UC de Avaliação em eLearning

Introdução: O Encontro entre Experiência e Ciência

Após quatro décadas como formador profissional, incluindo a formação de formadores e até formadores de formadores de formadores, algumas pessoas iriam supor que pouco haveria de novo a descobrir sobre avaliação. Contudo, ao longo da vida sempre acreditei que existe algo por descobrir e esta crença confirmou-se plenamente nesta unidade curricular. Esta UC revelou-se uma experiência verdadeiramente enriquecedora, proporcionando-me não apenas uma fundamentação científica para práticas que tenho desenvolvido intuitivamente ao longo dos anos, mas também apresentando-me ferramentas inovadoras como o Modelo PrACT, que já integrei no planeamento do curso “Partilhar Saberes com IA”, recentemente aprovado pela direção da ANAPR, onde irá ser implementado.

A Avaliação como Garante da Qualidade da Aprendizagem

Confesso que sou um suspeito para falar sobre a UC de Avaliação em eLearning. Se tenho gostado de todas as outras UC do mestrado, nesta pareço um “gato num cabaz de sardinhas”. A Avaliação tem sido, desde sempre, a minha parte preferida do ciclo formativo, pois sem avaliação não existe formação. A avaliação é essencial para demonstrar a eficácia do processo de aprendizagem: além de ajudar no próprio processo de aprendizagem (avaliação formativa, feedbacks, etc.), permite-nos saber se “valeu a pena investir este tempo” ou se “as horas que aqui perdemos nunca mais as vamos conseguir recuperar”.

É a avaliação que permite saber se existe ou não superação – termos um saber/”saber fazer”/”saber estar” superior neste momento que num outro momento anterior.

A Superação como Filosofia de Vida

Em termos muito pessoais, superação é algo muito importante na minha família. Para não falar no meu caso particular, tenho sempre o máximo orgulho de referir os meus filhos que, sem nunca terem sido pressionados nesse sentido, foram campeões nacionais de Corridas de Velocidade em Patins em Linha, campeões nacionais de Triatlo e campeões nacionais de semirrápidas de Xadrez. Por exemplo, o meu filho mais novo, agora com 28 anos, quase todos dedicados ao desporto, entre os 4 e os 14 anos recebeu anualmente entre 1 a 3 Medalhas de Mérito Desportivo Barreirense, o galardão com que a Câmara Municipal do Barreiro homenageia quem se distingue no desporto com pódio nacional (1º, 2º ou 3º lugares) ou 1º lugar distrital.

Se os meus filhos não foram forçados pela família ou pelos treinadores, como atingiram eles esses níveis? Através da superação pessoal, treino após treino: hoje vou fazer um pouco melhor que o que fiz ontem. A motivação intrínseca para a superação pessoal é o maior segredo do sucesso desportivo. Mas só se consegue aferir se existe superação se houver avaliação: Avaliação posterior > Avaliação anterior? No desporto, confunde-se frequentemente esse termo com classificação: o foco devia estar mais na(s) Avaliação(ões) e a (boa) Classificação surgiria naturalmente como consequência.

Reflexão sobre o Percurso: Das Atividades às Aprendizagens

Atividade 1: Fundamentos Teóricos – Reconhecer o Conhecido

A primeira atividade, centrada na evolução do conceito de avaliação pedagógica, permitiu-me compreender cientificamente princípios que aplicava empiricamente. A análise dos textos sobre “a linearidade dos usos à complexidade das práticas” foi muito relevante para a minha experiência: durante décadas observei como a avaliação evoluiu de um mero instrumento de controlo para um processo de assistência à aprendizagem.

O trabalho a pares e a posterior discussão em fórum criaram um ambiente de aprendizagem colaborativa que promoveu a democratização do conhecimento e o envolvimento ativo de todos os participantes na construção coletiva de significados.

Atividade 2: Avaliação Sustentável – Expandir Horizontes

O segundo módulo introduziu-me ao conceito de avaliação sustentável e estratégias para ambientes online. Aqui encontrei a síntese entre a minha experiência presencial e os desafios do digital. A leitura de Conrad e Openo sobre “Assessment Strategies for Online Learning” foi particularmente reveladora, mostrando-me como adaptar estratégias que funcionavam presencialmente para contextos digitais.

Esta fase revelou-se fundamental para compreender como estratégias eficazes no ensino presencial podem ser adaptadas e otimizadas para contextos digitais, mantendo a sua essência formativa mas explorando as potencialidades específicas dos ambientes online.

Atividade 3: Inteligência Artificial – Abraçar o Futuro

A terceira atividade foi particularmente gratificante porque, sendo informático e já utilizador de IA, pude partilhar com os colegas os problemas que tenho enfrentado ao longo dos anos como programador de projetos de eLearning e discutir como a inteligência artificial nos pode efetivamente ajudar a resolver alguns desses desafios. Elaborar um ensaio em coautoria com IA sobre os impactos desta tecnologia na avaliação permitiu-me sistematizar experiências práticas e contribuir para um debate fundamentado sobre as potencialidades e limitações desta ferramenta.

Esta experiência obrigou-me a repensar conceitos fundamentais sobre autenticidade e originalidade, questionando como integrar eficazmente esta tecnologia emergente mantendo o rigor e a integridade do processo avaliativo.

Atividade 4: Modelo PrACT – A Ferramenta Transformadora

A quarta atividade foi, sem dúvida, a mais impactante. O desenvolvimento do plano de avaliação para o curso “Partilhar Saberes com IA” utilizando o Modelo PrACT representou a materialização de todas as aprendizagens anteriores.

Implementação Prática das Dimensões PrACT:

Na dimensão da praticabilidade, defini ferramentas acessíveis como ChatGPT, Gemini e Copilot, estabelecendo tempos realistas de 60 minutos diários, considerando que o público-alvo são reformados ativos com diferentes níveis de literacia digital. Para garantir a autenticidade, estruturei tarefas que simulam situações reais de coautoria com IA, desde a criação de prompts eficazes até à reflexão crítica sobre outputs gerados. Relativamente à consistência, alinhei instrumentos de avaliação como rubricas integradas, avaliação de prompts e análise crítica com as competências específicas de cada módulo, garantindo coerência entre objetivos e avaliação. Finalmente, na transparência, implementei estratégias de feedback contínuo, fóruns de boas práticas e screen recording das sessões, assegurando visibilidade total do processo aos participantes.

Transformação da Prática Profissional

O Modelo PrACT tornou-se a minha nova ferramenta para o desenho de estratégias de avaliação. No curso “Partilhar Saberes com IA”, a aplicação concreta deste modelo materializa-se através de várias dimensões complementares.

Ao nível das ferramentas tecnológicas, optei pelo Moodle como plataforma principal, integrando de forma harmoniosa as capacidades da IA generativa. Esta escolha permite criar um ambiente de aprendizagem robusto e familiar aos participantes, ao mesmo tempo que explora as potencialidades inovadoras da inteligência artificial.

O cronograma foi estruturado num formato de 4 semanas intensivas, privilegiando uma abordagem de avaliação formativa contínua que acompanha o participante em cada etapa do seu percurso de aprendizagem. Esta temporalização permite um acompanhamento próximo e ajustamentos constantes às necessidades individuais e coletivas.

Os instrumentos de avaliação foram deliberadamente diversificados, abrangendo desde processos de autoavaliação reflexiva até dinâmicas de análise crítica colaborativa. Esta variedade metodológica assegura que diferentes estilos de aprendizagem sejam contemplados e que a avaliação se torne verdadeiramente integrada no processo formativo.

Finalmente, o feedback assume um caráter granular e específico, proporcionando comentários detalhados sobre a qualidade dos prompts criados pelos participantes e sobre a adequação dos outputs gerados pela IA. Esta abordagem permite uma melhoria contínua e consciente das competências em desenvolvimento.

Reflexão Crítica e Perspetivas Futuras

Esta UC confirmou-me algo que sempre defendi ao longo de quatro décadas de prática: que há sempre muito a aprender, mesmo em áreas em que eu acho que sei muito. A minha postura perante a aprendizagem ao longo da vida baseia-se na convicção de que estão constantemente a aparecer novas ferramentas, ambientes e metodologias que me podem ajudar a melhorar a minha prática profissional. O exemplo do Modelo PrACT não é apenas um quadro teórico; é um instrumento prático que já está a transformar como concebo, implemento e avalio formações.

A experiência com IA, que eu sempre usei mesmo antes de ser conhecida do grande público, na Atividade 3 obrigou-me a questionar pressupostos sobre autenticidade e autoria, melhorando a minha preparação para os desafios emergentes da educação no século XXI.

Conclusão: Da Intuição à Ciência, da Ciência à Prática

Este percurso na UC confirmou-me que a avaliação é, efetivamente, o coração do processo formativo. Transformou práticas intuitivas em estratégias fundamentadas, expandiu horizontes para abraçar tecnologias emergentes e forneceu ferramentas concretas – especialmente o Modelo PrACT – que já estão a moldar projetos futuros.

Esta UC confirmou-me algo que sempre reconheci ao longo de quatro décadas de prática: que há sempre muito a aprender, mesmo em áreas em que eu acho que sei muito.

A minha postura perante a aprendizagem ao longo da vida baseia-se na convicção de que estão constantemente a aparecer novas ferramentas, ambientes e metodologias que me podem ajudar a melhorar a minha prática profissional.

Avaliar em eLearning exige um redesenho intencional das práticas avaliativas, sustentado na promoção da aprendizagem ativa e na valorização da autonomia do estudante. A simples transposição de instrumentos tradicionais para ambientes online revela-se insuficiente e pode comprometer a eficácia da avaliação. É necessária uma verdadeira mudança de paradigma que valorize a transparência, a equidade, a acessibilidade e o fornecimento de feedback regular e construtivo.

A experiência com inteligência artificial na Atividade 3 reforçou a importância de adotar uma postura crítica, informada e consciente relativamente à utilização destas tecnologias emergentes. Reconheço o potencial da IA para personalizar e apoiar a avaliação, oferecendo soluções que diversificam e flexibilizam instrumentos e estratégias. Contudo, é imprescindível garantir uma utilização ética, crítica e transparente, para assegurar que a avaliação preserve o seu caráter formativo e humano.

A implementação do curso “Partilhar Saberes com IA” será o teste definitivo desta aprendizagem: um laboratório real onde teoria e prática se encontrarão, onde a experiência de décadas se casará com inovações contemporâneas. Este projeto materializa uma visão mais consciente e comprometida com práticas avaliativas inovadoras, flexíveis e inclusivas, capazes de responder aos desafios e oportunidades que os ambientes digitais colocam.

A avaliação, independentemente do contexto, deve ser um instrumento de transformação e crescimento, promovendo o desenvolvimento integral dos estudantes e valorizando a riqueza da sua diversidade. É com esta convicção renovada que prossigo, sempre com o objetivo de promover a superação – esse “maior segredo do sucesso” que persigo desde o início da minha carreira como formador.

“Sem Avaliação não existe Formação. É a Avaliação que permite saber se existe ou não Superação.”

Eduardo Santos

07/07/2025

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