Noção de Cibercultura

Foi-me solicitado que fizesse alguns comentários sobre o livro Cibercultura, de Pierre Lévy. No entanto, esta tarefa revelou-se extremamente desafiadora, pois é difícil “condensar” o conteúdo de uma obra onde cada palavra parece carregar um significado essencial.

Assim sendo, recomendo vivamente a leitura deste livro a todos que desejam compreender as profundas transformações sociais, culturais e tecnológicas desencadeadas pelo surgimento do ciberespaço, bem como o impacto da tecnologia digital na sociedade.


Pensar a cibercultura: esta é a proposta deste livro. Em geral consideram-me um otimista. Estão certos. Meu otimismo, contudo, não promete que a Internet resolverá, em um passe de magica, todos os problemas culturais e sociais do planeta.
(Lévy, 1999, p. 11)


A Arca da Responsabilidade Individual no Dilúvio da Cibercultura

A metáfora da Arca de Noé, utilizada para representar a responsabilidade individual face ao dilúvio de informação da era digital, encontra eco na obra de Pierre Lévy. No livro “Cibercultura”, Lévy compara a aparecimento do ciberespaço a um novo dilúvio, um “dilúvio informacional” (Lévy, 1999, p. 14), que exige adaptação e navegação constante.

Noé, perante a inundação, construiu um microcosmo de organização, protegendo uma seleção de conhecimento e transmitindo-o para o futuro. Da mesma forma, na cibercultura, a “Arca da Responsabilidade Individual” reside na capacidade de filtrar e organizar a informação, construindo “pequenas arcas” de significado.

A cibercultura, caracterizada pela interconexão global, pela desmaterialização (Lévy, 1999, p. 53) e pelo fluxo incessante de informação, desafia as noções tradicionais de conhecimento e autoria. Lévy transmite-nos a essência da Cibercultura quando advoga uma “Universalidade sem Totalidade” (Lévy, 1999, p. 111): um mundo onde a informação é livre e acessível para todos (Universalidade) mas não é controlada por nenhuma entidade (sem totalidade). Isto é, nenhuma “autoridade central” pode definir o que é valioso ou o que deve ser preservado. É uma mudança de paradigma relativamente aos modelos tradicionais de controle de conhecimento, como bibliotecas ou meios de comunicação centralizados. Ou seja, em vez de haverem “porteiros” a decidir a que informação temos acesso, passa a ser um esforço coletivo.

O fim do totalitarismo do saber, a impossibilidade de abarcar a totalidade da informação, exige a construção individual de sentido a partir de critérios próprios de pertinência.

A liberdade inerente à cibercultura, com a possibilidade de difundir informação sem intermediários e participar ativamente na construção do ciberespaço, oferece um potencial imenso para a democratização do conhecimento. No entanto, essa liberdade exige responsabilidade.

A responsabilidade individual manifesta-se na capacidade de navegar nesse oceano de informação, selecionando, organizando e partilhando conhecimento de forma crítica e consciente.

A participação em comunidades virtuais (Lévy, 1999, p. 127) e a contribuição para a inteligência coletiva (Lévy, 1999, p. 195) são outros aspetos cruciais da responsabilidade individual. A construção de uma nova Arca de Noé, portanto, depende de uma postura ativa e consciente, que reconhece o potencial da cibercultura para transformar a sociedade e o conhecimento.

Responsabilidade Individual e Coletiva na Preservação do Património Cultural na Cibercultura

Esta é, na era digital, uma questão central e complexa.

Para Pierre Lévy, o dilúvio informativo, com o seu volume e velocidade avassaladores, impossibilita o domínio total do conhecimento, exigindo a construção individual de sentido a partir de critérios próprios de pertinência.

É destacada a importância das ferramentas de navegação no ciberespaço, como os motores de busca, hiperligações, etc., que permitem filtrar e organizar a informação, criando desta forma “pequenas arcas” de significado individual. A responsabilidade individual manifesta-se na capacidade de navegar criticamente nesse oceano de informação, de forma a selecionar, organizar e partilhar esse conhecimento de forma consciente.

No entanto, a responsabilidade individual não é suficiente.

Lévy realça o papel das comunidades virtuais como espaços de colaboração e construção coletiva de sentido, e que contribuem para a inteligência coletiva. A participação nessas comunidades é crucial para a filtragem e preservação do património cultural.

Por outro lado, a questão da língua também é crucial. O domínio da língua inglesa no ciberespaço representa uma ameaça à diversidade cultural. A responsabilidade individual e coletiva reside em promover a tradução, a criação de conteúdos em diversas línguas e a valorização das culturas locais.

Em suma, o autor sugere que a salvaguarda do património cultural na cibercultura depende da sinergia entre a responsabilidade individual e coletiva. A capacidade individual de filtrar e construir significado, utilizando o seu sentido critico, aliada à participação em comunidades virtuais e à colaboração na construção de conhecimento, são elementos fundamentais para garantir que o dilúvio informativo, em vez de nos submergir, se transforme numa fonte de enriquecimento cultural para a humanidade.

A Cibercultura de Lévy 25 Anos Depois: Entre a Utopia e a Realidade

A noção de Cibercultura que Pierre Lévy apresentou em 1997, previa um futuro otimista para a internet. O ciberespaço, um segundo “dilúvio”, desta vez informativo, prometia democratizar o acesso ao saber e promover a inteligência coletiva.

No entanto, a evolução dos últimos 25 anos exige uma reinterpretação dessa visão, à luz das complexas dinâmicas que moldaram a internet.

Lévy argumentava que a cibercultura não substituiria os modos de comunicação tradicionais, mas os tornaria mais complexos. A internet, de facto, expandiu-se exponencialmente, entrelaçando-se com todos os aspetos da vida social. Contudo, a “universalidade sem totalidade”idealizada por Lévy, onde a informação flui livremente, deparou-se com a consolidação de um modelo de negócio baseado na exploração de dados e na monetização da atenção. Gigantes como Google e Facebook, impensáveis na época, controlam o acesso à informação e moldam a opinião pública.

Esta centralização de poder contraria o ideal de Lévy de um ciberespaço democrático. A “anarquia” da internet, idealizada pelo autor, está a tentar ser “domesticada” e transformada num mercado altamente lucrativo… para alguns.

A desinformação propositada, outro desafio imprevisto, amplifica a “bobagem coletiva” (Lévy, 1999, p. 29) e ameaça verdadeiramente a própria democracia. A proliferação de notícias falsas exige uma literacia mediática crítica, desafiando a ideia de Lévy de que a internet, por si só, conduziria à inteligência coletiva.

Contudo, a visão de Lévy mantém-se relevante.

Num ciberespaço, em constante mutação, temos de tomar medidas, não nos limitando apenas a uma análise passiva. Lévy convida-nos a agir e a construir ativamente um ambiente digital mais inclusivo, democrático e colaborativo e a resolver os problemas que vão surgindo:

  • É imprescindível investir na formação em literacia mediática crítica. A proliferação de fake news, deep fakes e o uso irresponsável de inteligências artificiais ameaça o potencial emancipador das tecnologias digitais.
  • A promoção de recursos educativos abertos e de ferramentas open source, desempenha também um papel crucial na resistência ao totalitarismo das grandes entidades tecnológicas

A internet, apesar dos seus problemas, continua a ser um espaço de criação e partilha de conhecimento, de colaboração e de ativismo.

Três exemplos ilustram a visão de Lévy:

A Wikipédia: enciclopédia online colaborativa que reúne milhões de voluntários, concretiza o ideal de inteligência coletiva. Apesar do domínio do inglês, a Wikipédia acolhe múltiplas línguas e culturas, aproximando-se do “universal sem totalidade” de Lévy, além permitir o acesso global e gratuito a informações de qualidade.

Recursos Educativos Abertos (REA): Este movimento promove o uso de conteúdos educativos de acesso livre, incluindo materiais com licenças Creative Commons. Alinhado com a visão de Lévy, os REAs mostram como o ciberespaço pode superar barreiras de acesso à educação e fomentar a colaboração global na criação e uso de materiais didáticos. Ferramentas como o Khan Academy, OpenStax e plataformas como OER Commons são demonstrações práticas desse ideal, promovendo uma aprendizagem acessível, contínua e colaborativa.

Software livre: O OpenSource e as comunidades de desenvolvimento gratuito promove a colaboração e partilha de código entre programadores, desafiando o modelo tradicional de propriedade intelectual e democratizando o acesso à tecnologia.

Bibliografia

Lévy, P. (1999). Cibercultura. (C. I. Costa, Trad.) São Paulo: Editora 34.

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